Preocupação com cobrança de US$ 70 mil afeta produtor de limoncello americano

Centenas de milhares de litros de vinho espumante italiano, pedidos antes das ameaças tarifárias do presidente Donald Trump, estão a caminho dos Estados Unidos.

Antes que esses vinhos possam ser descarregados e entregues, seus compradores podem se deparar com uma conta de tarifas exorbitante, suficiente para custear a educação de um filho, o que gera preocupação tanto entre consumidores quanto entre empresários americanos.

Proprietários de pequenas empresas expressam que estão paralisados pela incerteza decorrente do aumento das tensões comerciais – sejam reais ou apenas uma ameaça – com disputas tarifárias afetando vários aspectos de seus negócios e vendas.

Ninguém tem certeza de quando os Estados Unidos poderão resolver as tensões com o Canadá ou se cumprirão a ameaça de aplicar uma tarifa de 200% sobre bebidas alcoólicas da União Europeia.

Trump colocou em pauta a possibilidade de tarifas pesadas sobre bebidas alcoólicas europeias em resposta ao plano da UE de aumentar taxas sobre o whisky americano, entre outros itens.

Esse movimento, por sua vez, foi uma reação à imposição de tarifas de 25% sobre as importações de aço e alumínio por parte dos EUA.

A União Europeia está procrastinando a implementação de tarifas retaliatórias para criar uma oportunidade de negociação, algo que os produtores de vinhos e bebidas alcoólicas americanos esperam que ajude a aliviar uma guerra comercial na qual não desejam estar envolvidos.

No entanto, não está claro quando, ou até se, Trump poderá reverter sua ameaça de tarifa de 200%. Essa é uma incógnita significativa para Phil Mastroianni.

Quando a vida apresenta limões

Mastroianni fundou a marca de limoncello Fabrizia Spirits em 2009 junto de seu irmão, começando a operação na garagem dos pais, com uma receita familiar.

Hoje, a Fabrizia é a maior produtora de limoncello nos Estados Unidos e, neste ano, Mastroianni espera que a empresa descasque 1 milhão de limões para a produção de seus produtos, que incluem o limoncello original e coquetéis em lata.

A Fabrizia depende da importação de limões de Sicília para elaborar suas bebidas, recebendo toda a sua matéria-prima de uma família nessa região italiana.

No início do ano, a empresa fez um pedido de US$ 35.000 em vinho espumante de um produtor siciliano, com entrega prevista para abril em Boston, destinado a criar um novo spritzer de limoncello da Fabrizia.

Contudo, diversas mudanças ocorreram desde então. Se Trump seguir adiante com a tarifa de 200% sobre o álcool europeu, a Fabrizia pode enfrentar uma conta tarifária de US$ 70.000, além do custo do próprio vinho.

Agora, os Mastroiannis estão considerando opções de contingência caso essas tarifas sejam implementadas, como descarregar a remessa em outro país para evitar tarifas, o que acarretaria desafios logísticos, como utilizar tanques de terceiros para armazenamento.

“Chegamos a pensar: ‘Talvez possamos simplesmente cancelar o pedido’”, comentou Mastroianni.

Se a Fabrizia for obrigada a arcar com essas tarifas elevadas, Mastroianni acredita que o negócio sobreviverá, mas será necessário reduzir custos em marketing ou congelar aumentos de salário.

A empresa também se integrou à coalizão chamada “Brindes não Tarifas”, um grupo majoritariamente de pequenas empresas do setor, que se opõe às tarifas de álcool nos EUA, na UE e no Reino Unido.

Mastroianni permanece otimista.

“Uma coisa que é evidente é que Trump é um negociador, e acreditamos que a tarifa de 200% pode ser apenas uma tática. Esperamos que ele consiga fechar um acordo que mantenha o vinho e as bebidas destiladas de fora dessa lista”, disse.

Mudança nos hábitos de consumo de bebidas

Devido à guerra comercial gerada pelas tarifas de Trump, as empresas americanas que exportam bebidas alcoólicas estão perdidas em relação ao que pode acontecer no futuro.

Natalie Collins, presidente da Associação de Produtores de Uvas para Vinho da Califórnia, informou que os vinicultores de Napa e Sonoma não têm conseguido renovar seus contratos com vinícolas locais assim que os contratos atuais chegam ao fim.

“Poucas decisões de compra estão sendo feitas”, observou Collins. Com a primavera se aproximando, os produtores enfrentam decisões próprias a tomar, principalmente sobre cortar ou investir em plantações, sem garantia de que conseguirão vender as uvas colhidas.

Uma vinícola familiar no Condado de Sonoma revelou que possui centenas de caixas de vinho prontas para envio ao Canadá, com garrafas e rótulos específicos para o mercado canadense. Porém, estão estagnadas, uma vez que os vinhos e licores americanos foram removidos das prateleiras canadenses.

Essa situação representa um duro golpe para os produtores norte-americanos, que consideravam o Canadá como o maior mercado para suas exportações, respondendo por 35% do total, um valor de aproximadamente US$ 435 milhões.

Esse é mais um obstáculo para a já pressionada indústria vinícola da Califórnia. As novas gerações estão optando por escolhas mais saudáveis, consumindo menos álcool, e a inflação tem reduzido a renda disponível entre aqueles que bebem vinho.

Além disso, as mudanças climáticas têm impactado o cultivo das uvas. Os custos de conformidade para os produtores californianos aumentaram 64% nos últimos sete anos, alcançando US$ 1.600 por acre.

No entanto, em outros aspectos, as tarifas podem ajudar a equilibrar as condições para os vinhos californianos, conforme observa Collins.

Ela ainda acrescentou que a indústria vinícola da Europa é amplamente subsidiada pela UE, fazendo com que seus vinhos sejam mais acessíveis aos consumidores e, consequentemente, representem uma concorrência considerável.

Mesmo que as tarifas sejam temporárias, Collins espera que elas gerem discussões mais amplas sobre como aliviar os custos de produção de vinho nos Estados Unidos.

Estoque

Enquanto isso, há um aumento nas vendas de bebidas alcoólicas da Europa, com os consumidores americanos recorrendo ao estoque de suas bebidas preferidas do continente antes que ocorram possíveis aumentos de preços.

O site e aplicativo de entrega de vinho Vivino registrou um crescimento de mais de 30% nas vendas de vinhos franceses e italianos logo após o anúncio das tarifas por Trump, de acordo com Morten Heuing, CEO da companhia.

Heuing enxerga as tarifas como uma situação desfavorável para todos, gerando impactos negativos em cadeia: “[Os consumidores] irão modificar seus hábitos, sairão para restaurantes com menos frequência e optarão por alternativas mais baratas”, comentou.

“Os restaurantes podem acabar demitindo sommeliers, já que não fará sentido ter em sua carta de vinhos opções que os clientes não poderão mais pagar.”

Desde o anúncio, as vendas na Wine.com se dividiram em 72% com vinhos importados e 28% de vinhos nacionais, contrastando com a média do ano passado, que era de 60% e 40%, respectivamente, segundo Michael Osborn, fundador da empresa.

Os clientes mais jovens, em particular, têm se mostrado mais interessados em vinhos internacionais, e ele se preocupa que, caso os vinhos europeus se tornem inacessíveis, essas pessoas não encontrarão opções adequadas nas safras americanas.

“Temo que não haja substitutos. Não é comum encontrar equivalentes com a mesma qualidade. São regiões de cultivo com singularidades que não têm necessariamente uma contrapartida local”, destacou Osborn.

A presidente da Associação de Produtores de Uvas para Vinho da Califórnia, porém, não acredita que isso se concretize. Para ela, muito se resume aos preços, e muitas pessoas optarão por vinhos que sejam mais acessíveis, independentemente de sua origem.

Entretanto, o desafio maior agora é encontrar certeza em um cenário repleto de incertezas. A inatividade relacionada ao não envio de vinhos para o Canadá ou a falta de novos contratos com produtores de uvas está prejudicando a indústria.

“O dano já foi causado”, afirmou Collins.

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